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Primeiro sucatear, depois privatizar
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30/01/2008 | 15:25 |
Tenho lido e acompanhado diversos argumentos sobre a polêmica envolvendo as cotas raciais na Ufrgs. Sou daqueles que vêem a sociedade atual, extrememente dividida, egoísta e desigual. Dividida nos interesses, egoísta na concepção e desigual nas oportunidades. A Constituição prega a igualdade que não acontece na prática. Senão vejamos: o direito à saúde, à educação, ao emprego, ao lazer, à assistência social ainda é incipiente na sociedade brasileira. Há tratamento desigual e a prática mostra que nem todos têm acesso garantido aos direitos. Somos ainda uma sociedade de classes, onde os mais abastados logram de privilégios, têm boas escolas, melhores empregos, melhor moradia...
Nesta lógica situam-se as oportunidades ao direito mais elementar de uma vida humana: o direito à educação de qualidade. A Educação Básica em nosso país não abre oportunidades iguais para os jovens e adolescentes. Aos pobres, resta a escola pública e, aos aquinhoados, a escola particular, os cursinhos, os reforços. É inegável que a falta de investimentos públicos na educação básica têm precarizado o ensino e formado gerações que carregam consigo deficiências de conteúdo e de aprendizagem. A prosperidade do ensino privado se alimenta do vazio e da deficiência do ensino público.
Dois em cada dez alunos formados no Ensino Médio são de escolas privadas. Relação inversa se verifica quando se confere a origem dos vestibulandos aprovados no recente concurso da Ufrgs. A pergunta que se põe: por que tão poucos alunos de escolas públicas têm acesso ao ensino superior público e gratuito?
Ouso buscar alternativas. Um delas diz respeito ao sucateamento da Educação Básica da maioria das escolas públicas. Com professores mal pagos, falta de estrutura, enturmação, ausência de atualização docente, laboratórios de ciências e informática sucateados, baixa auto-estima, professores em desvio de função, prospera a conspiração contra a plenitude do direito. Sucatear é o caminho mais próximo da privatização. É nesta sutileza administrativa que o governo estadual trabalha para estimular a comercialização da educação. Enquanto não se qualifica a Educação Básica, garantindo oportunidades iguais a todos, os filhos de ricos vão continuar privilegiados e insistindo em negar a existência de uma sociedade desigual. As cotas são uma necessidade temporária para incluir parte dos jovens excluídos do direito a uma educação de qualidade.
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* Professor de Filosofia e Sociologia da rede pública estadual. |
Por Claudio Sommacal. |
Texto atualizado em 30/01/2008 | 15:25  |
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