Dia 20 de novembro passado, chegando ao Colégio Estadual Protásio Alves, em Porto Alegre, para mais um turno de aula, sou surpreendido com o ofício circular 129/07, oriundo da Coordenadora da 1ª CRE, assinado pela professora Jurema Garzella, passado a mim e a todos os meus colegas pela diretora da escola.
No documento enviado a todas as escolas estaduais de Porto Alegre, redigido numa sexta-feira, nenhuma palavra animadora enaltecendo o trabalho dos educadores. Nele há um extenso rol de lamentações e ameaças contra direções, professores e funcionários. Às vésperas de Natal, a gestora despeja sobre os trabalhadores uma lamúria própria de quem não gosta do que faz ou se sente incapacitada de gerir eventuais problemas que ocorrem em toda a administração.
Mas, vamos ao teor do ofício. Ele informa que a CRE recebe, "diretamente da Secretaria de Educação, inúmeras denúncias envolvendo direções, professores, funcionários e alunos, onde procedimentos inadequados envolvendo atestação indevida de efetividade, não cumprimento do Regime de Trabalho (por parte da direção, de professores e de funcionários), a má utilização das verbas recebidas, o não cumprimento do calendário escolar, entre tantas outras irregularidades". E ameaça: "por determinação superior e cumprindo o que reza a legislação vigente, comunico-lhe que terei que tomar providências, com averiguações e sindicâncias, em um acentuado número de escolas, o que me causa constrangimento e indignação". E não pára por aí. Na circular, a coordenadora da CRE questiona sobre o gerencimaneto de verbas, a necessidade do cumprimento de 20 e 40 "horas relógio semanais na escola", e antecipa a necessidade de "prever o quadro de RH para 2008, de professores nomeados para atender aos setores da escola, como biblioteca, supervisão ou orientação". Lembra, ainda, que "professores contratados ou convocados terão aproveitamento levando em consideração a qualidade do trabalho".
Julgo intempestivo e perturbador o documento emitido pela SE. É uma ameaça a todas as direções e corpo docente feito de forma indiscriminada como se todos os trabalhadores em educação das escolas fossem relapsos ou faltosos. É inconcebível que, ao término do ano letivo, professores recebam, como recompensa pelo ano de trabalho, uma correspondência emanada pela mantenedora, generalizando problemas, tornando todo professor e diretor como suspeito, ao invés de ocupar-se em avaliar caso-a-caso pontualmente. O que é pior, a carta põe em dúvida a capacidade profissional dos trabalhadores em educação que prestam serviço à escola pública no Estado. Por que a correspondência não vem apresentar novidades em relação às condições salariais, de trabalho, de formação continuada, de valorização profissional.
Dia desses fui provocado por alunos a revelar o valor do líquido de meu contra-cheque. Aceitei o desafio e revelei que o professor deles que possui três graduações, 18 anos de efetividade, 20h semanais, recebe do Estado R$ 694,65 reais mensais. Os alunos estupefatos e incrédulos riram. "Eu como estagiário ganho mais!", orgulhou-se um, no fundo da sala. Tenho alunos estagiários que recebem quase mil reais por mês. Minha escola não possui recursos para rodar polígrafos.
E, é bom lembrar, quem inicia a carreira, tem salário ainda mais minguado. De fato, é uma martírio ser professor neste Estado. Parece que estão querendo tornar esta atividade uma ação de missionários, de voluntariado. Somos heróis. O professor não é um fora da lei. O professor é um trabalhador que resiste apesar das ameaças. Só juntos, poderemos conquistar dias melhores.
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* Professor de Filosofia da rede pública estadual. |