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O Brasil de Dilma e o Brasil de Agripino
13/05/2008 | 15:36
Por trás do episódio ocorrido no depoimento de Dilma Roussef no Senado, semana passada, encontra-se o fato de que a “mãe do PAC” e o senador potiguar representam dois períodos históricos distintos, dois projetos inconciliáveis de país.

O episódio ocorrido na última semana, quando o senador Agripino Maia (DEMO-RN) tentou intimidar a ministra Dilma Roussef, lendo uma entrevista em que ela admitia ter mentido sob tortura, nos porões da ditadura militar, é de uma crueza tal que, ao mesmo tempo em que ficamos chocados, por um lado, com a desfaçatez do orgulhoso algoz (Agripino iniciou sua trajetória política como prefeito nomeado de Natal, nos anos 1970), por outro ficamos satisfeitos ao ver que, com todos os percalços, o Brasil vive um novo período histórico: amadurece uma democracia, de defeitos e qualidades. E que a oposição capitaneada pelo ex-PFL e pelos tucanos é o entulho de um período superado, em que figuras como Agripino são a última geração de políticos criados sob o regime militar, suplantados por transformações que combatem ardorosamente.

Tal fato me fez lembrar o segundo turno da eleição presidencial de 2006, quando Lula foi reeleito. Na primeira volta daquela eleição, não votei em Lula: tinha saído do PT, com críticas em relação ao Governo e ao modo de ser do Partido, como um todo.

No entanto, à época, um ato nojento da campanha de Alckmin me fez perceber que, por mais que se pudesse ter críticas a Lula e ao PT, seus adversários representavam o atraso absoluto. Tal foi a difusão de um adesivo contendo uma mão espalmada com quatro dedos, lembrando a deficiência física de Lula e dizendo: “+ 4 Não!”. Esse souvenir do tucano dizia por si, representando a visão de um tipo de gente que exclui pela deficiência física ou qualquer outra diferença do Outro: além de ser de esquerda, migrante nordestino, sem instrução formal, Lula não tinha um dedo!

Naquele momento, portanto, comecei a perceber que o que estava em jogo, mais que um balanço melhor ou pior do Governo Lula, ainda era a disputa de sempre: uma elite autoritária, atrasada e preconceituosa tentava mexer com os piores sentimentos de uma parcela do povo brasileiro para reverter alguns votos capazes de impedir a reeleição de Lula. Mais que a disputa de projeto de país, havia uma pendenga acerca de projeto de humanidade!

O debate da política naquele segundo turno, a falta de alternativas coerentes e programáticas à esquerda e a absoluta repugnância à oposição de direita me fizeram não apenas votar na reeleição do Presidente Lula de forma convicta, mas recompor minha relação com o Partido dos Trabalhadores no ano seguinte.

Qualquer analista da conjuntura atual (mesmo que eventualmente se oponha ao Governo Lula) há de concordar que o Presidente goza de uma popularidade poucas vezes vista na história desse país, resultado de políticas sociais e econômicas concretas. Se devemos ter críticas em relação a determinadas opções da política econômica, impossível negar que o atual governo tem uma agenda positiva para o país, da qual as obras do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) são o símbolo mais evidente. O atual governo deixará marcas para o futuro do país. A isso somam-se os constantes índices de crescimento do emprego formal, dentre tantas outras boas notícias com as quais já estamos nos acostumando a ver: algumas resultados de um período econômico mundial favorável; outras, necessariamente, resultados de investimentos conscientes do Governo Lula para que tais aconteçam.

É esse o período que estamos vivendo, com uma oposição absolutamente incapaz de produzir um contraponto de projeto de país capaz de ser consistente ou, ao menos, de apontar erros graves no atual governo.

Num primeiro momento, houve a forte tentativa de fragilizar ou mesmo derrubar o Governo com a crise de 2005. Depois disso, houve a reeleição já referida, com sinais de verdadeiro massacre. Num segundo momento, a oposição achava que, apesar da popularidade de Lula, a eles caberia apenas escolher entre Aécio Neves e José Serra, já que o campo governista não conseguiria produzir uma candidatura com viabilidade eleitoral. Esse foi, de certa forma, o clima de 2007: quanto menos política fizessem, mais fácil seria derrotar o governo em 2010. Era apenas uma questão de deixar o tempo passar.

A sucessão dos fatos, no entanto, nos permitiu chegar ao meio de 2008 com um cenário altamente favorável ao Presidente Lula, capaz daquilo que até há pouco parecia improvável: a popularidade dele pode começar a “colar” naqueles para quem ele apontar. E aí voltamos à Dilma.

Dilma Roussef é, de certa forma, um dos símbolos mais expressivos do atual governo. Figura mais ligada às realizações materiais do Governo e pouco ou nada vinculada às dificuldades da política, Dilma é pouco conhecida da massa, mas transmite a credibilidade que pode torná-la facilmente “vendável”. Uma decisão final de Lula em lançá-la candidata, pode levá-la rapidamente ao time dos candidatos viáveis, onde hoje se encontram os governadores tucanos Aécio (MG) e Serra (SP) e o governista Ciro Gomes.

É por aí que se explica, em grande medida, a ânsia de Agripino e de todos os representantes do DEMO: há que se destruir Dilma, já que não o fizeram nos porões da ditadura, apesar de todo o esforço então feito.

Nesse sentido, o ato bestial de tentar definir Dilma como uma eterna mentirosa porque admitiu ter mentido sob tortura é, para gente da laia de Agripino, “parte do jogo”: vale qualquer coisa para destruir o adversário, como valia, em outro tempo histórico, felizmente superado, torturar e matar.

O mais chocante, no presente caso, é que, dois dias depois, o senador ainda se dá ao direito de dar uma entrevista em que diz que “talvez tenha cometido um equívoco”, sem qualquer esboço de pedido de desculpas ou auto-crítica. Ele não tem vergonha de ter feito o que fez, como não deve ter do próprio período com o qual foi condescendente e adepto, a ditadura militar. Ainda foi capaz de dizer que Dilma “se fez de vítima” com a sua pergunta! Ora, Dilma não se fez de vítima. Ela foi uma das tantas vítimas da ditadura militar, vivendo presa durante três anos, sofrendo a condição de torturada, a partir de seus 19 anos. Uma pessoa com essa carga não “se vitimiza” simplesmente porque carregará durante toda a vida as cicatrizes. E qualquer lembrança disso, ainda mais nos termos jocosos em que foi feita por Agripino, é um novo sofrer. O tom de voz com quem Dilma respondeu o seu inquiridor dá conta da dor com que ela trata do tema. Só Agripino e aqueles que viveram tudo isso sob um outro ponto de vista não têm a sensibilidade para entender isso.

De tudo isso, podemos dizer que na quarta-feira passada, 07 de maio, se defrontaram, no Senado Federal, dois brasis e dois projetos de Brasil: de um lado, uma menina militante que sofreu nos porões da repressão militar e que hoje é a ministra que ajuda a transformar a realidade brasileira para melhor, rumo ao futuro; de outro, um parlamentar representante do passado, ex-prefeito biônico, ex-governador, componente de um partido que surgiu das cinzas da ditadura militar e que teve de mudar de nome para tentar parecer moderno, mas será sempre o partido de ACM, Jorge Bornhausen e... Agripino Maia...

Márcio Medeiros Félix, 29, é estagiário de Direito e estudante da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos, São Leopoldo, RS)
Por Márcio Félix. Texto atualizado em 13/05/2008 | 15:36
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