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As razões da esquerda em Porto Alegre
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28/04/2008 | 11:22 |
Considerada por muitos uma cidade de “esquerda”, Porto Alegre vive a experiência de um governo conservador. A capital dos gaúchos, antes a estrela mais brilhante da constelação de cidades que apostaram na democracia participativa, hoje é manchete dos jornais devido ao colapso da rede de proteção social, do descaso na saúde pública, pelo aumento significativo da violência e da criminalidade – produto direto da incompetência administrativa e de um olhar que privilegia os abastados e gera o caos e o conflito social.
Uma vez no governo, a coalizão de Fogaça desbaratou um a um os símbolos construídos nos 16 anos de Administração Popular: esvaziou as assembléias do Orçamento Participativo, desconstituiu conselhos populares, acabou com políticas de inclusão social e desenvolvimento humano, apresentando um projeto que retira direitos. Ele que havia sido eleito para “manter o que estava bom” e “mudar o que não estava”, apenas retomou a velha forma clientelista de fazer política, restabelecendo o balcão de negócios e a política do compadrio. Resultado disso, em quatro anos: pessoas ocupam as marquises (lhes fecharam as pontes e não lhes deram abrigo), o lixo toma conta das calçadas, o trânsito é caótico e a piora da qualidade do transporte público é uma realidade.
Fogaça encerra seu governo deixando como marcas principais de sua administração a intolerância e o descaso para com a nossa cidade. Não fosse a cultura democrática e reivindicatória que a cidade constituiu, nosso diálogo constante com os movimentos sociais e nosso envolvimento com as lutas do povo, o impacto deste retrocesso haveria de ser ainda maior.
Embora todos os pontos negativos da atual administração, a vitória da esquerda e do PT não está dada em Porto Alegre. A blindagem da mídia, um conjunto de partidos que oferecem certa base social (PTB principalmente) e grande tempo de TV (PMDB), a máquina da prefeitura e a forte identificação de José Fogaça com a cidade, o torna um adversário que coloca dificuldades para ser derrotado. O PT e a esquerda precisarão construir uma plataforma que envolva a sociedade para nos habilitar a retomar o Paço Municipal.
Em primeiro lugar, precisaremos saber associar “experiência” e “renovação”. Ao contrario de outros lugares, Porto Alegre viveu uma longa experiência de governos de esquerda que estarão novamente em julgamento nestas eleições, agora na comparação com o atual governo conservador. Os quatro governos da Frente Popular são notadamente melhores que o atual e podemos vencer a disputa comparativa, mas esta não será suficiente para a vitória eleitoral. Precisaremos também ter a capacidade de apresentar um programa que dialogue com as novas necessidades da cidade, deveremos superar nossas proposições do passado.
Sermos inovadores não significa mitigar nossa vocação socialista e de esquerda, mas sermos capazes de avaliar adequadamente a nova conjuntura política, econômica e social da metrópole dos gaúchos e das gaúchas e apresentar o melhor projeto possível para a construção da cidade inclusiva e sustentável do presente e do futuro.
Isto posto, nos coloca o desafio de dialogar da maneira mais ampla com a sociedade no sentido de reafirmar nossos compromissos históricos, restabelecer novos laços de confiança e organizar uma agenda que proponha mudanças e envolva a cidade como um todo. Primeiro, restituir, em um patamar ainda mais elevado, nosso compromisso com a democracia participativa e com o seu aprofundamento, ou seja, ampliar e aprofundar a capacidade do OP e dos conselhos populares de controlar a ação dos agentes políticos da cidade, empoderando a cidadania, estimulando a diversidade característica de nossa gente.
Segundo, retomar a agenda da inclusão, reorganizando os serviços públicos, investindo fortemente em educação e ciência, integrando a periferia e o centro da cidade, avançando na reforma urbana. Terceiro, apresentar um projeto de desenvolvimento inovador que se baseie nas vocações produtivas da cidade e que focalize as novas oportunidades para uma capital com geração de empregos de alta qualificação.
A integração destes três eixos com as propostas construídas no dialogo com a comunidade deve consolidar o novo projeto democrático-popular, calcado na exitosa experiência que tivemos no passado associada com a capacidade de ir além no próximo período. Sendo, dessa forma, capaz de mobilizar os diversos segmentos que dão sustentação ao nosso projeto, reanimá-los a ir às ruas e reconstituir a maré vermelha que embalou a cidade em 88, 92, 96 e 2000.
Nesta união do passado e do futuro será muito importante a capacidade dos partidos renovarem seus quadros e figuras públicas, apresentando uma imagem dinâmica para os cidadãos, tendo por base a manutenção daqueles que já elegemos, mas ampliando nosso leque de atuação para os setores que não obtivemos êxito em outros tempos: como a juventude.
O quadro eleitoral de 2008 em Porto Alegre, com toda a sua complexidade, apresenta uma condicionante indelével: com sua história, com o projeto que representa na cidade e no país, com a grau de articulação que possui com os movimentos sociais da capital, não há projeto de esquerda que não contemple a participação central do PT. A esquerda unificada teria todas as condições de uma vitória razoavelmente tranqüila se desse conta das duas tarefas centrais: (1) ampliar o dialogo entre partidos e cidade e (2) apresentar um projeto novo que dê conta e aprofunde as boas experiências passadas. Entretanto, o quadro não é o da unidade da esquerda. Em 88, 92 e 96 isto já havia ocorrido, e é legítimo que o campo democrático-popular contenha diferentes sensibilidades sobre táticas eleitorais e sobre a execução da política em um governo da esquerda.
É importante que tais diferenças sejam confrontadas com a realidade que enfrentaremos no pleito de outubro. O PT, por exemplo, uma vez definido pela candidatura da companheira Maria do Rosário, tratou de demarcar seu campo de ação no que diz respeito à política de alianças.
O bloco conservador liderado por Fogaça é composto por um conjunto de partidos diversificado: desde setores progressistas (PDT), passando pelos neoliberais (PPS e parte do PMDB) e a direita ideológica (PP). Enquanto o PT delimita sua interação com o PDT, parte da esquerda busca acolhimento nos setores mais intransigentes na defesa do Estado Mínimo – o que até então parecia ser um divisor de águas para todo nosso campo político.
Caso não seja para governar com ampla capacidade de transformação social, defesa do poder público como articulador do desenvolvimento da cidade, principalmente no sentido da inclusão, não valerá a pena a esquerda vencer a eleição.
A tarefa de nosso campo político na eleição municipal será a de aglutinar forças sociais que até aqui estiveram à margem ou foram excluídas do debate político sobre os rumos da cidade. Se à época da Administração Popular havia um espaço de articulação para tal iniciativa (o OP), que ocupava o poder público em atender as reivindicações da população, hoje, esse canal está obstruído e resta aos partidos de esquerda assumir sua tarefa e caminhar em direção da unidade para o próximo outubro. Esse deveria ser o desejo e a razão da esquerda em Porto Alegre.
Ariane Leitão é da direção nacional da JPT e da direção municipal do Partido dos Trabalhadores.
arianecl@gmail.com |
Por Ariane Leitão. |
Texto atualizado em 28/04/2008 | 11:22  |
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