Maria Celeste Tomei a liberdade de utilizar o título do livro lançado pela primeira vez em 1970 pelo jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano, para tecer algumas reflexões sobre o atual momento vivenciado na América Latina, em especial os últimos acontecimentos envolvendo os países andinos da Colômbia, Equador e Venezuela.
Na obra de Galeano, o autor procura compreender o processo de formação da América Latina, discutindo os vários interesses existentes, desde as contradições internas, até a postura do imperialismo britânico e norte americano acerca da exploração econômica das riquezas da região.
A atitude do governo Colombiano em promover um ataque aos guerrilheiros das FARC em território Equatoriano, também nos desafia a buscar compreender o que está por trás de tal ação sem os apelos simplórios que buscam criar uma consciência unilateral de valor, ou seja, invadir território de outros países, desrespeitando normativas do Direito Internacional, vale, desde que seja para assassinar guerrilheiros.
Grande parte da mídia tem criticado mais a atitude do presidente da Venezuela e do próprio Equador de reforçar o sistema de segurança à sua soberania na fronteira com a Colômbia, do que colocar em pauta a atitude traiçoeira do presidente colombiano, Álvaro Uribe, no momento em que as FARC realizavam gestos importantes para encontrar uma saída política ao conflito armado na Colômbia, inclusive com o apoio de vários países do mundo.
Tal atitude não foi unilateral, ela contou com o apoio dos EUA que desde o ano 2000, através do Plano Colômbia, não tem medido esforços em dar suporte tecnológico militar e armamentos ao governo colombiano. Aliás, não é a primeira vez que isto acontece, já em outubro de 2000, o exército colombiano realizou um ataque em grande escala em Putumayo, no sul do país, na região mais rica em petróleo, localizada na fronteira com o Equador, com a desculpa de combater um foco da guerrilha supostamente ligado ao narcotráfico.
Por detrás destas ações militares, há o interesse dos Estados Unidos que não se restringe ao petróleo. A biodiversidade da Amazônia colombiana só perde para o Brasil, sendo que somente seus recursos hídricos já bastariam para atrair os Estados Unidos. Essa questão, torna-se ainda mais delicada, principalmente se levarmos em conta que a água doce, cada vez mais escassa, já é considerada uma questão chave para o século XXI, tendo nos Estados Unidos seu principal consumidor mundial.
Num momento em que, concordemos ou não com o método, há nitidamente um processo histórico de resgate à soberania de vários países da América Latina através da eleição de governos com forte apoio popular, é lógico deduzir que isso representa uma ameaça constante aos interesses na região por parte da maior potência mundial.
Para Bush e seus aliados, o novo Iraque é aqui, bem nas nossas costas, mas podemos seguir fingindo que isso não nos atinge e que é uma forjada mera coincidência. Por sinal, é uma exelente oportunidade para assistir ao filme Mera Coincidência, de Barry Levinson, lançado em 1997. Talvez ele nos ajude a compreender que a ameaça não vem do território venezuelano, mas das antenas de TV.
Maria Celeste é vereadora do PT em Porto Alegre |